3.11.06

“Creio…na santa Igreja Católica...”

Domingo passado, tive o privilégio de cultuar a Deus juntamente com a Primeira Igreja Presbiteriana de Cranford, NJ, com a qual estamos iniciando uma parceria importante para o cumprimento da nossa missão. Durante o culto, como parte da liturgia, recitamos o Credo Apostólico, aquele que é considerado o credo mais antigo usado pelas igrejas para definir os elementos básicos da fé cristã.
O Credo Apostólico, embora não tenha sido estabelecido pelos apóstolos, foi percebido pelas igrejas, desde muito cedo, como sendo uma expressão fiel do ensino dos Apóstolos. Ele afirma o Deus Triúno, em seus três artigos—“Creio em Deus Pai...criador do céu e da terra. Creio em Jesus Cristo, seu único filho, nosso Senhor...[e] Creio no Espírito Santo...”
O Credo Apostólico tinha também por finalidade reforçar a crença cristã na plena humanidade de Jesus Cristo, negada por aqueles que professavam uma fé gnóstica. Por isso, ele afirma, no seu segundo artigo, que Jesus Cristo, o Filho de Deus, é aquele mesmo que nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e morto, mas ressurgiu e voltará para julgar vivos e mortos.
Por fim, o Credo também afirma a presença do Espírito Santo, operando a unidade da igreja e a remissão dos pecados. E esse artigo começa assim: “Creio no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na comunhão dos santos...”
Mais do que nunca, no domingo passado, eu podia afirmar do fundo do meu coração que, de fato, eu creio nessas palavras. Havia passado a semana participando de um evento, com coreanos de diferentes denominações, e também com outros cristãos de diferentes nacionalidades e etnias. Durante aqueles dias, fortalecemos relações antigas e estabelecemos novas relações, que vinculam igrejas de diferentes denominações, e pessoas de diversas nacionalidades. Não é isso, por si mesmo, uma tremenda afirmação da nossa fé?
O êxito do Evangelho de Jesus Cristo está exatamente na sua capacidade de inclusão. Barreiras étnicas, nacionais, ideológicas e religiosas são rompidas pela presença do Espírito de Cristo, o qual reconcilia a tudo e a todos. Pensando nisso, podemos afirmar que cremos, sim, na “santa Igreja Católica,” que é essa igreja universal, a qual está para além de todos os limites denominacionais. Tal igreja, não pode ser igualada a qualquer instituição religiosa, nem tampouco à Igreja Católica Romana. No momento em que ela passa a ser Romana, na verdade deixa de ser católica, pois a Igreja Católica ou Universal não admite qualquer outro adjetivo que a reduza aos limites tribais das nossas diferenças.
Afirmar a catolicidade da Igreja não significa que não temos identidade. Dentro desta igreja universal há lugar para todas as identidades. Cada identidade é valorizada por sua contribuição peculiar à catolicidade ou universalidade da Igreja. Sem tal diversidade, a Igreja de Cristo perde também sua catolicidade, pois passa a congregar somente os iguais. Desde o seu começo, registrado no Livro de Atos, vemos a unidade da Igreja sendo afirmada em meio à diversidade. Unidade é algo diferente de uniformidade. A uniformidade é sempre redutora e opressora. Ela procura reduzir o outro a mim. Ela é idólatra porque sacraliza e absolutiza o “EU”, a minha perspectiva, a minha forma de crer, e termina por demonizar e destruir o outro, vendo-o como “meu inimigo”, ao invés de como “meu próximo.”
Penso que um dos grandes desafios que temos diante de nós hoje é redescobrirmos a capacidade de afirmar ao mesmo tempo a nossa identidade e a nossa catolicidade. As duas coisas sempre andarão juntas. Por isso, passamos tanto tempo na EBD aprendendo sobre nossa identidade, enquanto batistas, para com muita tranquilidade afirmarmos também nosso compromisso com a catolicidade do Corpo de Cristo. Negar tal catolicidade é negar um dos artigos básicos da fé cristã e negar o poder reconciliador do Espírito Santo, que tem trabalhado em nós a fim de fazer de nós uma verdadeira “comunhão dos santos”, redimindo-nos dos nossos pecados, os quais nos distanciam uns dos outros.
Meu desejo é que, rompendo todos os preconceitos plantados em nossa subcultura evangélica brasileira, possamos com convicção dizer que também cremos na santa Igreja Católica.

A Explosão do Fundamentalismo

Há algum tempo atrás, a palavra “fundamentalismo” era conhecida unicamente em círculos teológicos, e ouvida apenas em discussões isoladas e esporádicas. Hoje ela se tornou comum. O fundamentalismo tem despertado a atenção das pessoas como nunca antes, e são incontáveis as conferências, os livros e as pesquisas que têm sido desenvolvidas sobre o assunto. O 11 de setembro, mais do que qualquer outro momento, fez com que o mundo inteiro percebesse que o crescimento do fundamentalismo pode ter bastante implicações sobre o futuro da humanidade.
Essa nova visbilidade do termo “fundamentalismo” deve-se também à expansão do seu significado, que passou a englobar eventos políticos, principalmente no Islamismo. Junto com essa expansão, a palavra “fundamentalismo” passou a ter sentido acusatório. Nos nossos dias, fundamentalista é sempre o outro. Eu, posso ser no máximo um “radical”. Na resposta aos ataques do 11 de setembro, vimos esse termo ser usado na mídia para designar a natureza dos terroristas. Eles eram fundamentalistas mulçumanos. As atitudes, porém, dos acusadores, tinham a mesma natureza e caráter das dos acusados, e as conseqüentes reações do governo Bush deixaram isso claro.
Se quisermos, porém, entender realmente o termo fundamentalismo, precisamos voltar à sua orígem, ao seu uso inicial. E para fazermos isso, precisamos lembrar que, tradicionalmente, esse termo se originou dentro do protestantismo—e, mais ainda, do protestantismo evangelical. Embora o seu nicho tenha se formado em meados do século XIX, o termo foi cunhado por volta de 1915, quando alguns teólogos (se assim os podemos chamar) de Princeton—isso mesmo!!!—publicaram uma pequena coleção de livros chamada The Fundamentals, onde “propunham um cristianismo extremamente rigoroso, ortodoxo, dogmático, como orientação contra a avalanche de modernização tecnológica de que era tomada a sociedade americana.” (Boff, 2001) O fundamentalismo protestante tem como uma de suas principais afirmações a doutrina da inerrância da Bíblia, a qual foi inspirada verbalmente e deve ser entendida literalmente, sendo autoritativa em todas as áreas do conhecimento, inclusive o científico. Cada palavra e cada vírgula é vista como inspirada por Deus—sendo assim, não pode conter qualquer erro. Para o fundamentalista cristão, então, o mundo foi criado em seis dias de 24h e existe há apenas pouco mais de 6 milênios. Os textos são interpretados a partir de um literalismo radical. Há um rigorismo doutrinário e moral, uma atitude inflexível e militante para com tudo o que contraria a sua visão do mundo e das Escrituras. Há um espírito de cruzada contra os modernistas, os movimentos de libertação, as mulheres, os homossexuais, etc.
O fundamentalismo se extendeu no último século. Hoje há funtamentalistas tanto protestantes quanto católicos, judeus ou islâmicos. Há fundamentalistas não apenas no campo religioso, mas também no campo político e sócio-econômico. Como nos diz Leonardo Boff, o fundamentalismo não pode ser identificado com uma doutrina específica, mas, sim, como uma forma de se viver e interpretar uma doutrina. “É assumir a letra das doutrinas e normas sem cuidar de seu espírito e de sua inserção no processo sempre cambiante da história, que obriga a contínuas interpretações e atualizações, exatamente para manter sua verdade essencial. Fundamentalismo representa a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista.” (Boff, 2001)[ grifo meu]
Quem se sente portador da verdade absoluta, torna-se intolerante, despreza aquele que é diferente, torna-se agressivo e apologético nas suas interações com os outros, e, finalmente, declara guerra ao que considera erro—o qual deve ser combatido e exterminado. Vivemos um momento histórico de insegurança e temor em escala mundial, agravado pela guerra entre diferentes formas de fundamentalismo. Em meio a tudo isso, precisamos redescobrir o espírito de Jesus Cristo. Somente uma atitude tolerante com as diferenças, aberta ao diálogo, preocupada com o bem comum, humilde em suas afirmações sobre suas verdades, e disposta a interagir com um mundo cada vez mais pluralista, pode representar uma alternativa para a expansão do fundamentalismo. Que seja esse o nosso espírito, conforme aprendemos de Cristo.

13.10.06

O Caminho Não Percorrido

Um dos poemas mais conhecidos no mundo de fala inglesa chama-se “The Road Not Taken”, que eu estou traduzindo como “O Caminho Não Percorrido,” escrito por Robert Frost (1874-1963). Nesse poema, Frost descreve a luta que travamos quando temos que fazer escolhas entre diferentes caminhos a percorrer. Vendo-se como um viajante, que teve de escolher um caminho a seguir quando a estrada onde andava se divergiu em duas, ele fala, antes de mais nada, da dificuldade que teve para escolher um caminho e deixar de percorrer o outro. Suas primeiras palavras são: “Duas estradas divergiam num tronco amarelo, e eu lamento não poder viajar pelas duas [sendo um viajante apenas...].”
Ler essa poesia de Frost, me remeteu a um outro texto—não tão poético, mas semelhantemente intrigante—que li anos atrás, escrito pelo sociólogo Niklas Luhmann. Luhmann ressaltava a complexidade da vida, formada por uma rede de sistemas sociais que interagem entre si de forma bem variada, formando novas composições sociais a cada instante e negando outras. De acordo com ele, cada escolha que fazemos abre uma possibilidade nova e nega tantas outras. A cada decisão, optamos por seguir um caminho e deixamos de percorrer outros—certamente não fazemos isso com facilidade. As possibilidades negadas vão para debaixo do tapete da história, esperando uma oportunidade para ressurgirem, embora nunca re-emerjam da mesma forma como teriam emergido em situações anteriores. É esse o dilema retratrado por Frost. Fez a escolha por um caminho, mas ficou imaginando como não teria sido o outro. É assim a vida, a cada passo que damos. Temos que fazer escolhas difíceis, e, como alguém já disse, é a soma dessas escolhas que nos darão o veredito final sobre o que haveremos de ser, que nos mostrarão o resultado do caminho percorrido.
Mas o poema de Frost não fala só desse dilema. Pelo contrário, esse é um poema sobre a escolha que o viajante já fez. Eram dois os caminhos, muito equivalentes até onde poderiam ser vistos. O viajante sabia que ao escolher um para percorrer naquele dia, talvez nunca mais tivesse a oportunidade de caminhar pelo outro. Mas ele, enfim, escolheu. Decidiu percorrer o que estava mais gramado, que pedia para ser pisado. Frost conclui o seu poema quase que com um suspiro, de alívio, e com uma grande declaração: “Em algum lugar, há muito tempo atrás, dois caminhos separavam-se a partir de um tronco. E eu...eu escolhi o que tinha sido menos caminhado, e isso tem feito toda a diferença.” [grifo nosso]
A mensagem de Frost, portanto, é um convite ao não-conformismo, à atitude de ousar caminhar pelas estradas menos percorridas. Andar por caminhos já bastante percorridos certamente nos traz uma sensação de segurança, mas também pode com muita frequência conduzir à mesmice e à mediocridade. Descobrir nossos próprios caminhos tem os seus riscos, mas, sim, pode fazer toda a diferença.